Capítulo 19
(Sétima) Arte
Essa cartinha vai ser rapidinha para dizer que estou viva. Sem testamento hoje (será que consigo?), vamos ser objetivos (vamos?).
Está na época de Oscar, então é a época do ano na qual a maioria dos filmes mais falados do ano está nos cinemas. Até gostaria de ver mais filmes, especialmente no cinema, já fui uma pessoa de ver mais filmes, foram pouquíssimos em 2025, mas assim é a vida (em algum momento do ano passado me comprometi a ver um filme por semana, o que dariam 52 no fim do ano, mas pffffff). Enfim, desde o primeiro trailer de Hamnet, que me chamou a atenção pela fotografia belíssima, estava curiosa pelo filme e fui conferi-lo.
Baseado no livro do mesmo nome, essa é a história de um jovem casal, formado por dois esquisitos/excêntricos locais, sendo que o homem vai atrás do seu sonho de escrever enquanto sua esposa segura as pontas em casa, até que uma tragédia recai sobre a família.
É um filme de chorar? Sim. É um filme belíssimo? Sim.
Porém, o terceiro ato do filme me pegou bastante porque é onde entra o papel da arte na vida desse casal e também, por que não, do papel da arte no mundo.
Hamnet é um filme sobre luto, ausências e perdas, mas é também um filme sobre o poder da arte - o de ser a maneira mais segura de termos acesso a determinados sentimentos. E isso vale tanto para nós, os espectadores, em contato com aquela família, quanto para os personagens, o Will, ao escrever a peça, e a Agnes, ao assisti-la. É pela arte que se processa o luto. É pela arte que se processa o amor.
É escrevendo que Will processa o que está sentindo, é vendo a criação de Will que Agnes entende o que se passa com ele. No início do filme, logo que se conhece, ele diz que não é bom em falar, mas é bom em contar histórias - e é através da história contada que ele fala.
Através da arte, muito além de dizer, podemos escutar. Processar. Ter contato com um mundo fora do nosso e que reflete em nós.
Aqui entramos em um terreno perigoso, eu sei, não dá para encaixar a arte (logo a arte!) numa visão utilitarista de mundo. Ela não tem e nem precisa ter função, pode justificar sua existência com um “porque sim” ou nem justificar coisa alguma.
Mas que bom que através dela podemos vivenciar tanta coisa.
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Também vi O Agente Secreto por esses tempos, também adorei, que filme gostoso, colorido, quente - e cujo tema principal, a memória, está lá a todo instante. Achei bem interessante o fato do filme ter nascido de Retratos Fantasmas, o filme anterior do diretor e que trata das memórias dos cinemas de Recife, mas é principalmente um filme sobre o quanto a memória individual e a coletiva se mesclam, se fundem e como é fácil, muito fácil, esquecer. E tem passagens deliciosas, como toda uma sequência inspirada nos slasher movies e que faz muito sentido no contexto.
E vem a lição porque nunca tinha me caído a ficha até então: histórias sensacionalistas como a Perna Cabeluda ou o Bebê Diabo do ABC são, elas mesmas, formas de comunicação daquilo que acontece mas não pode ser dito.
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Até a próxima!



Minha vontade de assistir Hamnet cresceu absurdamente depois de ler tuas considerações 😊